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7- Tradução de entrevista de Giorgio Morandi para a Voz da América, 1957. Revista da USP nº 57, março/abril/maio 2003.

      Entrevistador- Penso que sua visão da pintura é clara, simples e serena. Como o senhor chegou a ela?

            Morandi- Para mim é muito difìcil dizê-lo. Creio que o temperamento, minha natureza inclinada para a contemplação, tenham me levado a esses resultados. Não poderia dizer mais; é muito difícil, para um artista, dar razões. Exprimir o que há na natureza, isto é,   no mundo visível, é o que mais me interessa.

            Julgo que a tarefa educativa possível das artes plásticas é, particularmente no   presente, comunicar as imagens e os sentimentos que o mundo visível suscita em nós. O que nós vemos penso ser criação, invenção do artista, caso ele tenha a capacidade de fazer cair aqueles diafragmas, ou seja, aquelas imagens convencionais que se interpõem entre ele e as coisas.

            Dizia Galileu: o verdadeiro livro da filosofia, o livro da natureza, está escrito em caracteres estranhos ao nosso alfabeto. Estes caracteres são: triângulos, quadrados, círculos, esferas, pirâmides, cones e outras figuras geométricas. Sinto o pensamento galileano vivo em minha antiga convicção de que os sentimentos e as imagens suscitadas pelo mundo visível, que é mundo formal, são muito dificilmente exprimíveis, ou talvez inexprimíveis com as palavras. Com efeito, são sentimentos que não têm nenhuma relação, ou só têm uma muito indireta, com os afetos e com os interesses cotidianos, já que são determinados justamente pelas formas, pelas cores, pelo espaço, pela luz.

            Todavia, estou distante da pretensão de querer estabelecer normas para a obra do artista e definir uma poética.

            Ent.- O que o senhor acha da pintura abstrata?

            Mor.- A pintura abstrata produziu obras importantes, se pensarmos, por exemplo,   para citar apenas um nome, em Paul Klee... no primeiro cubismo...Braque...Picasso... Para mim não há nada abstrato; por outro lado, creio não haver nada mais surreal, nada mais abstrato que o real.

            Ent.- E o senhor já o provou nos seus trabalhos.

            Mor.- Gosto do que o senhor me diz.

            Ent.- E enfim, gostaria de perguntar: tem conselhos a dar aos jovens artistas de amanhã?

            Mor.- Não me sinto capaz de dar conselhos... Quando se tem uma certa idade... Tenho confiança nos jovens... Para mim, seria faltar com o respeito para com as novas gerações. O senhor tem a mesma opinião?

            Ent.- Sim. Também tenho a mesma opinião.

            Mor.- Vemos os erros que fizeram mesmo   grandes artistas, ao julgar artistas jovens.

            A responsabilidade é deles, é das novas gerações, portanto eles terão de se virar. Se tiverem um grande talento, eles tentarão abrir seu caminho e encontrar os meios para realizar algo novo... Até mesmo uma nova arte.

            Ent.- Esses são bons conselhos para nós! Muito obrigado, senhor Morandi.

 

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