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Textos

3- "Gravura:Arte Brasileira do séc. XX". São Paulo, Cosac Naify/Itaú Cultural, 2000.

texto 2

      Quando ando pela rua, estou sempre em busca do meu trabalho. Passante, espero pela revelação da forma poética oculta pelo hábito, fitando a luz sempre diversa, a construção/destruição da cidade, os reflexos, o movimento das pessoas, as sombras, os espaços. As imagens que se apresentam, rigorosamente estruturadas, mas independentes de qualquer intenção, feitas e desfeitas a todo instante, que apenas existem num certo olhar. São soma de uma presença, um tempo, um espaço, um ponto de vista. Procurando outra rua, um portão entreaberto, uma exata incidência de luz, uma placa de trânsito fora de prumo, projetando uma sombra. As cores daquele fragmento de mundo parecem ter sido cuidadosamente escolhidas. Alguns minutos antes ou depois, um mínimo deslocamento da luz solar alteraria tudo, desfazendo a estrutura da imagem. Passando na calçada oposta, ela não se revelaria. Um quadro que jamais saberia imaginar. A qualquer momento, em qualquer lugar, em muitas cidades que são uma só: aquela criada por minha presença. A experiência poética nem sempre se dá nos recintos oficiais; preciso estar atento, porque o Instante não se anuncia. Mas a cidade fica paisagem quando estou distraído. Para ver o que vejo todos os dias, preciso ser estrangeiro. O mundo é aqui. Mas é uma viagem, ir até aqui. A cidade é sentidos e imaginação, espanto e tédio, memória e esquecimento, invento e distração, matéria, espaço, afeto, tempo, noite e luz. Meu ateliê fica onde estou.                 

             

                                                                                                Marco Buti

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