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4- "Gravura:Arte Brasileira do séc. XX". São Paulo, Cosac Naify/Itaú Cultural, 2000.

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                        A gravura brasileira pode parecer uma nota dissonante no panorama da produção gráfica contemporânea. Aqui, pouco se observam as abordagens que têm ganho maior destaque internacional nas últimas décadas: grandes formatos, complexidade técnica, realização em gráficas com amplos recursos, por uma equipe de técnicos especializados. No Brasil, o artesanato pessoal continua predominando, e é plenamente contemporâneo.

            O que costumamos chamar de contemporaneidade não pode ser concebido de maneira estática e simplista. Trata-se, na verdade, de inúmeros presentes simultâneos , em mudança, mas com ritmos e direções diferentes, onde o tempo não se separa do seu espaço, e o agora continua sendo parte da história. Deslocam-se muito menos, no entanto, os centros reais de poder: controlando as informações, projetam a imagem de uma contemporaneidade harmônica, que desejam cada vez mais afinada aos seus interesses. Alguns participam da dinâmica da nova economia através da tecnologia de ponta, absorvidos pelo mundo virtual. Muitos outros, com os velhos esforços físicos e mecânicos, sentindo toda a brutalidade dos fatos. São duas faces do mesmo fenômeno: às estatísticas correspondem vidas humanas.

            O mundo artístico participa do mundo. Por mais que se insista que a arte só pode falar de si mesma, não deixa de gerar capitais e poder, como qualquer outra mercadoria. A gravura em maior evidência só pode ser realizada naqueles locais onde o mercado de arte e a economia como um todo permitem os investimentos necessários, e garantem seu retorno. Pelo menos no plano material, toda realização artística sofre tais influências, contribuindo para as opções estéticas. Por exemplo, o prestígio de que desfrutou a Arte Conceitual entre nós, onde o problema material é minimizado. A super-valorização, em sua época, de manifestações secundárias e de baixo custo, como o xerox, a arte postal e o graffiti. O largo uso de resíduos, mais recentemente. Por outro lado, esculturas e instalações   dificilmente atingem dimensões gigantescas, e pouco se fêz próximo das grandes intervenções urbanas e da Land Art. O espaço não se expande além dos limites dos financiamentos, que são mais generosos apenas nas grandes ocasiões, quando se erguem vastos cenários.                     

            Mesmo os meios mais evidentemente contemporâneos, como o vídeo e as tecnologias digitais, não oferecem ao artista brasileiro toda a gama de recursos possíveis; tanto quanto o gravador, deve transformar em qualidade estética as limitações materiais, ao fundí-las com seu conhecimento e sensibilidade. Nenhum meio a priori   garante nível poético ou contemporaneidade: só pode ser considerado enquanto veículo de um processo artístico. No uso massificado, as mesmas tecnologias de ponta capazes de suscitar uma emoção autêntica e uma experiência estética, ilustram o quanto é ambígua a noção de contemporaneidade: produzem infindavelmente um futuro virtual, novas sensações visuais, cujo objetivo principal é, numa expressão famosa, que as coisas mudem para que continuem as mesmas.

            Nada aponta para uma superação das disparidades mundiais, e muito menos das brasileiras - pelo contrário, a exclusão parece aprofundar-se. Provavelmente, aqui continuaremos desfrutando por um longo tempo do privilégio da intervenção artesanal plena no processo gráfico,   podendo vivenciar a experiência artística em sua totalidade. Não é tão pouco, continuar dissonante, ou mesmo desafinado, no meio da harmonia globalizada, quando o cinismo, o vazio e o conformismo parecem ser a opção de um número crescente de artistas, críticos e curadores.      

             

                                                                                                Marco Buti

realizado por artebr.com