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6- Introdução do livro "Gravura em Metal", São Paulo, Edusp, 2002

        À primeira vista,um manual de gravura parece se restringir aos procedimentos técnicos.Conforme os conceitos possíveis de arte,o momento histörico,as estëticas vigentes,identifica-se a tëcnica artística com a pröpria arte ou,no outro extremo,pode-se relegá-la a uma posicào secundária no processo de criacào.Em conseqúenci,o manual poderá ser visto como a chave da realizacào do trabalho ou considerado algo digno de pouca ou nenhuma atencào.

            Mas adotar posturas hegemônicas ë impor modelos à praxis artïstica.Há trabalhos que devem ser realizados com precisào mecanica,outros exigem a colaboracào sensível de uma equipe,alguns sö adquirem sentido executados pessoalmente pelo artista.Quando algo precisa ser materializado,há necessidade de um certo grau de conhecimento técnico.Este grau é determinado pela necessidade de realizacào da obra,suas qualidades,a a a adequacão ao pensamento do artista..

            Francastel jä ensinava que as atividades humanas nào podem ser interpretadas isoladamente,ou seja,nào há técnica e arte puras,nem cultura,ou sociedade,ou economia.O   manual parece aspirar a essa pureza   : atëm-se      ao dado tëcnico   como se esquecesse o mundo,fornecendo informações objetivas.Mas a gravura em ato faz parte de uma rede ilimitada de relações inapreensível pela linguagem-o real.Procurar transmitir,com fins de orientaçào,a prática da gravura como devir,levaria a livros infinitos e inúteis.Portanto,apresentam-se os procedimentos como neutros,dependentes apenas das caracterïsticas dos materiais e instrumentos.Forma-se um compêndio de atos controläveis,que garantem os resultados,se aplicados cuidadosamente.A informaçào parece completa,prevendo todos os cuidados necessários e possibilidades de gravação.Tudo se decidiria na esfera técnica.Muitas leituras quiseram reduzir arte a artesanato,ou entenderam o fazer como momento inferior,indigno do artista,podendo ser delegado a terceiros sem considerações mais precisas.Mas isto revela mais nossas precärias relações sociais do que as necessidades de uma poëtica.

            Uma primeira complexidade,evidente,é o hiato entre a linguagem verbal e a experiência do trabalho com os materiais.Eles exigem uma educação especïfica dos sentidos,que supera o alcance da palavra escrita e solicita a presença do mestre.Seu papel não ë desenvolver uma habilidade limitada,mas orientar a articulação deste ato   manual com todos os nïveis poëticos e culturais.Ë um transmissor de conhecimentos no seu pleno sentido.

            Devemos considerar tambëm o aspecto histörico.A gravura não é   uma linguagem estagnada:novas possibilidades foram   e continuam sendo incorporadas.Cada   manual apresenta os recursos existentes   até o momento de sua publicaçào.É testemunho não só de um desenvolvimento técnico,mas também sócio-cultural.Existem registros de maneiras de gravar   usadas específicamente para a cópia e multiplicação de imagens,antes do advento da fotografia.Esta função é hoje secundária.O sentido de fazer uma imagem potencialmente múltipla agora,quando a reprodução e o simulacro se tornaram regra,é inteiramente distinto de épocas em que a gravura era a única imagem com tais características.As mesmas operações descritas num manual antigo,realizadas hoje,não são mais as mesmas,inseridas em outra dimensão temporal..

            Se há   orientações básicas similares em todos os tratados,existem também profundas diferenças.A atividade gráfica nunca se distribuiu com uniformidade pelas várias linguagens;sempre houve predomínios e preferências em função de interesses econômicos,possibilidades técnicas,conceitos estéticos,disponibilidade de materiais e equipamentos.Alguns autores abordam apenas uma ou poucas   especialidades;outros procuram ser totalmente abrangentes.Existem manuais "conservadores","tradicionais",ëxperimentais",ïnovadores".Em alguns livros encontram-se mais enfatizados os procedimentos que o artista privilegia em seu trabalho.É claro que há muito mais a dizer sobre os meios usados na busca da realização poética.

            Estas escolhas nào têm nada de gratuito.À opção,no plano técnico,por determinados instrumentos,pela experimentação com certos materiais,por meios foto-mecânicos ou artesanais,pela combinação de tudo   isto,corresponde um conceito de arte,posturas estéticas e políticas,um lugar no tempo e no espaço,um pensar,um sentir.Em alguma medida,o manual está contaminado pelas posições do seu autor,mesmo limitando-se a descrever procedimentos técnicos.

            Quanto ao papel reservado para o leitor,tudo parece restrito ao aprender e aplicar as operações descritas,sem levantar maiores indagações.Pode-se tratar o manual   como objeto de estudo,para compreender melhor o fazer gráfico.Mas é totalmente distinto ler esse mesmo livro à procura de recursos para realizar a imagem desejada.Neste caso,trata-se de um artista buscando a realização de sua obra.Quer se manifestar através daqueles procedimentos genéricos,mas   é outro ser,e serão outras suas ações.

            Ler um manual de gravura não significa tornar-se capaz de executar todas as operações apresentadas.É interpretá-lo,sabendo extrair o necessário a cada manifestação.Se o livro já denuncia em certo grau a presença de seu autor,mesmo procurando a neutralidade,a gravação em ato está impregnada pelo artista.Se o que se procura transmitir são procedimentos gerais,adequados a qualquer gravura,a técnica pessoal só serve para um trabalho.Atua também em outros níveis:é simultaneamente ato técnico e poético.

            Os dados técnicos   contidos em qualquer manual devem ser completados pelo artista,acrescentando-lhes intenção e sentido.Esta ação nào é uma habilidade,conceito que só abarca o plano físico:é a capacidade de organizar a matéria,tornando-a também poesia.Através da   gravação,gerando signos,organizand-os como linguagem poética,o artista procura o sentido.A técnica empregada é um canam de comunicação do ser com a matéria.É um processo de concepção contínua,cujos momentos são indissociáveis e igualmente privilegiados.

            Um manual de gravura não é um conjunto fechado de regras e procedimentos tradicionais ou experimentais,a serem aprendidos e seguidos,desprezando a realidade vivida do artista.O que foi inovador,integrado à sua praxis,já não será mais,publicado e repetido por outros.Uma poética contemporânea pode exigir também meios tidos por tradicionais.Tudo depende de uma vontade de realizar em busca da tradução mais fiel.Um manual é semelhante a um dicionário-"que não acerta nunca o matiz   preciso"segundo Borges.Um livro a ser consultado,para ajudar a realização de uma poética que não prevê nem poderia conter .


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